"Só uso a palavra para compor meus silêncios"

Manoel de Barros


Eu só tenho usado o silêncio para compor os meus gritos...

Este é pura e simplesmente um espaço na mídia para divulgar meus poemas, contos, crônicas e artigos de opinião, bem como dos meus mestres e mestras da Filosofia e ARTES de um modo geral. Amo ESCREVER, acima de todas as coisas, então faço desse espaço o meu "grito de alerta", sem maiores pretensões...mas sempre com muitas provocações, pois fazem-se necessárias para que não sigamos mansos a trilha da manada direto para o matadouro... Apesar de todas as decepções, eu AINDA creio e amo o ser humano, então vamos lutar todos juntos em UNICIDADE, AMOR E FRATERNIDADE.

sábado, 17 de julho de 2010

Ilha das flores - filme curta metragem por Jorge Furtado




O gaúcho Jorge Furtado é diretor de uma das melhores comédias do cinema nacional recente, O Homem Que Copiava, de 2003. Muito antes disso, já era conhecido por uma pequena obra-prima, o premiadíssimo curta-metragem Ilha das Flores – melhor curta em Gramado e Urso de Prata em Berlim. Numa alucinada colagem de imagens, narradas pelo ator Paulo José a partir de um texto de assombrosa objetividade - ainda que por vezes beirando o surreal -, Furtado retrata sucintamente as mazelas da sociedade de consumo.

O senhor Suzuki planta tomates em Porto Alegre. Ele é um bípede, mamífero, possui o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. É, portanto, um ser humano. Ele vende os tomates no supermercado. Dona Anete, também um ser humano, vende perfumes e, com o dinheiro da venda, compra os tomates do senhor Suzuki e carne de porco para uma refeição da família.

Um dos tomates está estragado e é jogado pela conscienciosa dona Anete no lixo. O refugo vai parar num lixão da capital gaúcha conhecido pelo irônico nome de Ilha das Flores. Nele, um homem compra um terreno e no local cria porcos. Seus funcionários catam no lixo o que pode ser considerado apropriado como alimentação para os porcos. Depois, o dono do terreno deixa entrar aqueles que então poderão escolher a parte que lhes cabe do lixo como alimentação - os seres humanos.

As últimas palavras do roteiro lembram: "O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores numa posição posterior aos porcos na prioridade de escolha de materiais orgânicos é o fato de não terem dinheiro nem dono. Os humanos se diferenciam dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por serem livres. Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."

A Ilha das Flores não é uma ficção. Existe, e fica na margem esquerda do Rio Guaíba, a poucos quilômetros de Porto Alegre, a céu aberto. Assim como existem as circunstâncias descritas por Furtado, que escolheu uma ficção para descrevê-las.

O diretor disse ter entre suas influências no curta o escritor americano Kurt Vonnegut Jr. (um ídolo dos hippies), o diretor francês Alan Resnais (e, em especial, seu filme Meu Tio da América) e a enciclopédia Conhecer. Certamente encontra-se nele, também, a influência do cineasta americano e membro do grupo Monty Python, Terry Gilliam, e suas vinhetas animadas para antológico seriado Flying Circus.

Seja lá de onde for que o telencéfalo de Furtado tirou suas ideias, Ilha das Flores poderia e deveria ser matéria curricular, por registrar de forma didática e engajante uma realidade que, ao final, deixa um gosto amargo e funciona como um poderoso alerta: "gente é pra brilhar, não pra morrer de fome"(Caetano).

Texto de José Eduardo Mendonça

do site http://www.planetasustentavel.abril.com.br/

Verso destacado no texto de autoria de Cecília Meireles